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Saúde não pode ser só vítima da crise climática. Também precisa mudar o próprio sistema

Foto de uma áscara cirurgica aberta, jogada em um chão de terra.

POR JAQUELINE NICHI

Há relatórios que apenas organizam dados. E há relatórios que mudam o enquadramento do problema. O novo Climate & Health Impact Report 2024–2025, da National Academy of Medicine, trata mais do segundo aspecto do que do primeiro. Ele não aborda clima e saúde como agendas paralelas; mas parte do mesmo impasse histórico: um sistema que adoece pessoas enquanto agrava as condições ambientais que tornam a vida mais vulnerável. O relatório mostra como a iniciativa climática da academia norte-americana passou a operar em seis frentes ao mesmo tempo: setor de saúde, comunidades, comunicação, pesquisa, transformação de sistemas e parcerias globais, tentando tirar o debate do plano abstrato e colocá-lo em estruturas, ferramentas e alianças concretas. 

O ponto mais incômodo, e talvez mais importante, aparece logo de saída: o setor de saúde não entra nessa história apenas como vítima da crise climática. O próprio relatório lembra que a saúde responde por cerca de 8,5% das emissões de carbono dos Estados Unidos. Ou seja, não basta preparar hospitais para ondas de calor, fumaça, enchentes e novos padrões de adoecimento. Também é preciso rever compras, energia, cadeia de suprimentos, resíduos, formação profissional e prestação de cuidado. Quando o setor que deveria proteger a vida também ajuda a aprofundar a crise, a resposta não pode ficar restrita à adaptação. Ela precisa incluir transformação institucional. 

É justamente aí que o relatório fica mais interessante. Em vez de vender uma grande solução salvadora, ele mostra a construção de uma infraestrutura de ação. A Climate Collaborative reuniu 85 organizações e 107 integrantes em grupos de trabalho, com crescimento de 40% entre as fases 1 e 2. O movimento mais amplo associado a ela já reúne 373 organizações, incluindo 51 sistemas de saúde que representam mais de 600 hospitais. Não é pouca coisa. Mais importante: esse avanço veio acompanhado de instrumentos práticos, como mapas de jornada para descarbonização, uma pesquisa padronizada para reporte climático na cadeia de fornecedores e guias curtos para profissionais de saúde incorporarem sustentabilidade à rotina. O mérito aqui está menos em “conscientizar” e mais em organizar capacidade de implementação. 

Outro eixo forte do relatório é o reconhecimento de que soluções climáticas e sanitárias não podem continuar sendo desenhadas apenas de cima para baixo. A Climate Communities Network parte da ideia de que experiência vivida também é conhecimento válido. Em 2024 e 2025, a rede selecionou 18 organizações comunitárias, destinou US$ 195 mil diretamente a esses grupos e estruturou apoio a planos locais de ação, oficinas de formação e conexões com parceiros estratégicos. O que aparece ali é uma crítica silenciosa, mas poderosa, ao modelo tradicional de governança: comunidade não pode entrar apenas como público-alvo ou lugar de teste. Precisa entrar como formuladora, coprodutora e referência de prioridade. 

O relatório também insiste, com razão, que clima e saúde ainda sofrem com um problema de linguagem pública. Durante muito tempo, a crise climática foi comunicada como tema ambiental, energético ou regulatório. O esforço da NAM tenta reposicionar essa conversa como tema de saúde humana. Isso ajuda a explicar a aposta em convenings de alta visibilidade, como o Climate and Health Day de 2024 e o Climate and Health Summit de 2025, que reuniu mais de 300 pessoas presencialmente e mais de 2.100 virtualmente. Soma-se a isso um portal com mais de 350 recursos baseados em evidências. O recado é claro: não basta ter dado; é preciso ter narrativa pública, repertório confiável e espaços de convergência para transformar preocupação difusa em ação coordenada. 

Na frente de pesquisa, o diagnóstico também merece atenção fora dos Estados Unidos. O relatório reconhece que o campo ainda é desigual e fragmentado: há mais evidência sobre calor e doenças respiratórias, mas persistem lacunas em saúde mental, nutrição, migração, saúde materno-infantil e iniquidades. Em resposta, a NAM lançou uma agenda de pesquisa organizada em quatro eixos: impactos climáticos sobre a saúde e seus custos, estratégias de resiliência, dados e capacidade institucional, e conexão entre ciência, política e engajamento público. O valor disso está em assumir que não existe política robusta de clima e saúde sem base de evidência melhor distribuída e sem capacidade local para usar essa evidência. 

No Brasil, uma chave concreta para esse deslocamento aparece em iniciativas como o projeto Climaterna, da Trilha Saúde do BI0S, que ajuda a trazer a discussão de clima e saúde para uma escala ainda pouco considerada pelas políticas públicas: a da saúde materno-infantil vivida nos territórios. Ao olhar para como o calor extremo e outros eventos climáticos atravessam a vida de gestantes, mães e bebês, o projeto recoloca no centro uma dimensão frequentemente tratada como tema periférico, quando deveria ser entendida como parte estratégica da adaptação. Mais do que mapear riscos, ele sugere que cuidado, prevenção e justiça climática precisam ser pensados juntos, com base tanto em evidências quanto na experiência concreta de quem vive a crise no corpo, na casa e na rotina.

Talvez o aspecto mais útil para o debate brasileiro esteja no trecho final do relatório: a saúde aparece não apenas como setor, mas como lente para reorganizar sistemas inteiros. A iniciativa de Transforming Systems for Climate & Health foi lançada em 2025 exatamente para isso: recolocar energia, transporte, alimentação, economia e governança sob uma pergunta simples e incômoda: que tipo de arranjo realmente melhora saúde, reduz emissões e diminui desigualdades ao mesmo tempo? Em paralelo, a NAM ampliou sua atuação internacional com uma coalizão que reúne mais de 30 academias de medicina e apoiou, em 2025, o Plano de Ação em Saúde de Belém na COP30. Para o Brasil, isso interessa bastante. Não porque devamos importar modelos prontos, mas porque confirma algo que já ficou evidente: clima e saúde deixaram de ser uma pauta periférica. O que ainda falta, em muitos lugares, é tratá-las como agenda central de reorganização institucional e de justiça social. 

No fim, o melhor do relatório talvez esteja menos nos números e mais na inversão que ele propõe. Em vez de pensar saúde apenas como setor que reage a desastres, ele a coloca como parte do desenho de futuro. Muda a forma de comunicar. Muda a forma de pesquisar. Muda a forma de financiar. E, sobretudo, muda a forma de perguntar o que significa proteger a vida em um planeta mais quente, mais desigual e mais instável. 

Referência 

NATIONAL ACADEMY OF MEDICINE. Going Farther Together: Climate & Health Impact Report 2024–2025. Disponível em: https://nam.edu/our-work/programs/climate-and-health/going-farther-together/

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